É comum a crítica de que o servidor público é vagabundo, que ganha e não quer trabalhar, e por isso é um peso para a sociedade. Nas costas do servidor público é lançada a conta e a fatura de tudo o que de pior acontece na gestão de recursos e atividades do Estado. São os servidores os principais culpados pelos rombos previdenciários, orçamentários, pelos baixos valores do salário mínimo e das aposentadorias. A falência dos serviços públicos de saúde, segurança, educação, transportes, dentre outros, tem um único responsável: o servidor público.Nos jornais, e em toda a mídia em geral, a palavra de ordem é atacar sistematicamente essa “praga”, chamada servidor público. Em espaços de opinião, toda a sorte de economistas, a serviço do mercado, vituperam que a ineficiência de toda a Administração pública decorre quase que exclusivamente da incompetência dos servidores públicos.
Há uma impressão generalizada de que o serviço público, qualquer que seja, é destinado à ineficiência e ao colapso. O modelo liberal e neo-liberal, que defende estar nas mãos da iniciativa privada o Santo Graal da eficiência, competência e da boa gestão, é inclemente ao dizer que na elevada carga tributária estão as digitais desses criminosos chamados servidores públicos.
Em alguns momentos, essa torrente de argumentos que afoga a sociedade, parece fazer algum sentido. Parece verdade, a culpa é dos servidores. Contudo, não se vê a abertura de espaços para que os servidores prestem contas e se defendam dessas acusações. Ao servidor não há direito de defesa. A impressão que fica é a de que os servidores são tão incompetentes que nem conseguem organizar seus pensamentos para apresentar uma defesa razoável.
Em um programa famoso de TV a cabo, foi realizada uma entrevista para discutir os rumos, as mazelas e o futuro do serviço público. Pasmem, nenhum servidor, sindicalista, representante de classe ou associação foi chamado. No debate, apenas economistas, políticos e um antropólogo. Todos, em uma sinergia unânime, concordaram e sustentaram que os servidores representam um custo, um custo que não gera benefícios e que, historicamente, vem deles as raízes da corrupção.
Confesso que ficou difícil entender se o programa pretendia debater soluções para problemas, ou se pretendia propor uma “SOLUÇÃO FINAL” para a questão dos servidores.
Tomando como verdade absoluta todo esse discurso crítico contrário ao serviço público, procurei buscar, no mar da competência e qualidade de serviços prestados pela iniciativa privada, as razões e os exemplos objetivos de sucesso que confirmariam ser a iniciativa privada, e não o poder público, a única capaz de entregar os serviços básicos de excelente qualidade exigidos pela sociedade.
Analisei o sistema bancário, que é composto por bilionárias e gigantescas instituições que tem a capacidade de gerir bem recursos, aumentando os lucros e reduzindo custos. Infelizmente, constatei uma série de exemplos negativos. Trabalhadores oprimidos, os serviços cheios de imperfeições e erros, demora no atendimento, filas, desrespeito ao idoso, abusos sobre abusos. Na “terra dos livres”, os bancos foram os responsáveis pelo início de uma nova era de pilhagem e escravidão. O que a propaganda mostrava, a realidade desmentia. Os escândalos, as falências, as irregularidades, a gestão fraudulenta, a corrupção, foram expostos nos telejornais e ficou claro, para mim, que a solução para melhorar os serviços públicos não estava naquele modelo.
Na exemplar indústria automobilística, as constatações foram desanimadoras. Assim como no sistema de bancos, os trabalhadores sofrem, as leis de segurança do trabalho não são respeitadas e os direitos dos consumidores, usuários dos produtos, são sistematicamente burlados. Os carros produzidos não são seguros, basta ver a quantidade de “recalls” que fazem a festa dos meios de comunicação. É evidente que os produtos não estão aptos a fornecer ao consumidor o que ele mais quer: segurança e conforto.
A telefonia, fixa e móvel, dispensa comentários. Sua política “Kafkaniana” de relacionamento, além de não se prestar a resolver nenhuma demanda do consumidor, é capaz de enlouquecer até o mais pacato monge budista. Apesar de ser um serviço deficiente, há eficiência na emissão e cobrança de suas faturas.
Parece que pretendo justificar a má qualidade do serviço público, considerando a iniciativa privada tão ruim quanto. Não é verdade! O meu intento não é justificar a ineficiência pública, com ineficiência privada. O que pretendo é criticar a crítica que é feita ao serviço público. Creio que conseguirei fazer isso, no curso do texto.
Continuando, deparo-me com a grande indústria do petróleo. Há respostas, lá? Não. É como chegar na porta do inferno e ler: DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS. É essa a indústria que mais desrespeita o ser humano, que mais viola leis ambientais, que omite, o quanto pode, suas falhas. É a indústria dos desastres com danos irreparáveis. Não, definitivamente, não há ali um bom exemplo de gestão.
No sistema privado de educação deve existir boas respostas, afinal, nos vestibulares, são os alunos da rede privada que contam com as maiores chances de sucesso. É um sistema que constrói um bom cidadão? Não! O sistema privado de educação não forma bons cidadãos, na verdade é um sistema que forma bons decoradores de fórmulas, bons decoradores de questões, excelentes decoradores de receitas de sucesso, como aqueles cachorrinhos de circo. Não há uma visão de solidariedade, de comprometimento com a comunidade, de retorno, de ajuda ao próximo, de questionamento crítico, de coletivo, de opinião livre. Não, mesmo. Os alunos vivem em um ambiente de competição, de adversários, de inimigos concorrentes.
Não importa se é educação pública ou privada, o que se percebe é uma coisificação, uma mercantilização do ser humano. As meninas viram reboladoras mascadoras de chiclete que usam saias justas e os meninos são modelos estereotipados de “pegadores”. A única diferença está na capacidade financeira de cada grupo. A minissaia da aluna de escola pública é da PXC, e a da escola particular, da Cavalera. O conteúdo, lamentavelmente, é o mesmo.
Se há alguma diferença marcante, deve estar no sistema privado de saúde. O atendimento deve ser bom, sem filas, com tratamento amplo e capaz de atender as necessidades dos pacientes. Mas, não foi dessa vez. A remuneração de médicos é aviltante, as filas existem e no lugar do “não tem vaga” e do “não tem médico”, existe o “o seu plano não tem essa cobertura”. Os idosos são delicadamente convidados a sair aos 60 anos. Na data do aniversário do contrato, recebem de presente um reajuste de mais de 250% em seu seguro. De fato, não há atendentes feios, suados ou grosseiros dizendo aquilo que não queremos ouvir, eles foram substituídos por cartinhas ou telefonemas com aquelas vozes “pasteurizadas”, de sotaque baiano, paulista, mineiro ou gaúcho, que, sutilmente, delicadamente dizem um sonoro: NÃO TEM VAGA, NÃO TEM MÉDICO, NÃO TEM TRATAMENTO.
É possível arriscar dizer que a busca por um modelo melhor de gestão pode durar toda a eternidade. Jamais vamos encontrar algo que tenha mais vantagens do que um serviço público universal.
Eis a verdade: o sistema capitalista tem um pilar fundamental que se chama livre mercado, livre concorrência. Mas esses mesmos capitalistas, que se chamam liberais, libertários, que defendem a igualdade e a liberdade de condições para todos, sem essa tutela maternal do Estado, detestam competir. Foram eles quem inventaram o MONOPÓLIO, o TRUSTE, o CARTEL e todos os mecanismos que impedem a regular e laureada LIVRE CONCORRÊNCIA. Ah, esses capitalistas! Eles querem que a competição exista, desde que eles não sejam os perdedores. Eles dizem para o todo o mundo que todos tem o direito de tentar, de vencer, de arriscar, de ganhar e perder, mas se esquecem de dizer que essa equação só vale se quem perde é VOCÊ. Só você tem o direito de perder.
Quem entendeu essa “malandragem”, foi Karl Marx que, de forma bem interessante, contra-argumentou dizendo mais ou menos o seguinte: “péra, lá! Essa competição só vai ser justa somente se os detentores do controle do sistema abdicarem de suas vantagens – por bem ou por mal- então, com a distribuição dessas vantagens para TODOS, de forma JUSTA e IGUAL, é que se pode começar a pensar um mecanismo adequado de competição e de relações econômicas”.
Marx acertou no nervo dos capitalistas, que ficaram bem contrariados!Afinal, quem está disposto a dividir seu rico dinheirinho?
Não quero muito avançar nesse debate, o meu objetivo é, apenas, preparar você, meu caro leitor, para o que vou dizer agora. O sistema capitalista detesta qualquer ideia de igualdade ou equidade. Por natureza, é um sistema fundado no egoísmo e na desigualdade. O utilitarismo, um pensamento deles, defende isso claramente.
Como o capitalismo está repleto de mazelas e incongruências, precisa, desesperadamente, de alguém para servir de “inimigo”, de alguém para competir. Qualquer ideia que envolva solidariedade ou cooperação, causa arrepios. O simples gesto de apertar as mãos, para eles, é algo que restringe a individualidade e representa um perigo para a liberdade individual (pode ver, em filmes e na TV, que quem mora nesses países é frio, não gosta muito de abraços, de cumprimentos, parecem uns robôs). Só importa o indivíduo, que é o centro de tudo. Esse pensamento insere a primeira forma de competição – é o indivíduo contra o mundo!
É um ambiente que não é saudável. No Japão, o índice de suicídios é elevado e nos EUA o índice de estudantes loucos e assassinos é assustador. Aquele que não consegue vencer, recebe o bilhete amarelo de Jean Valjean, e vira um eterno perdedor a ser excluído e nunca reintegrado. Como nessa cultura ninguém gosta de perder, e o capitalista detesta perder, a saída é a TRAPAÇA. Enquanto uns destroem a competição instituindo monopólios, outros acabam com a competição à bala! No melhor estilo BANG-BANG. A dinâmica é a mesma.
No Brasil, é bom atentar para isso, esse fenômeno começa a dar sinais de que está criando raízes. É por isso que devemos pensar se é isso que queremos para a nossa sociedade.
A concorrência cria um ambiente de rivalidade, de inimizade e insegurança. Os inimigos precisam ser derrotados. Como? GUERRA.
O sistema capitalista precisa viver em guerra. São dois os motivos; 1º, alimenta a competição; e 2º como na guerra só o que importa é a vitória, se consegue impedir uma análise adequada dos próprios atos. Na guerra, valores como consideração, solidariedade, comunhão e fraternidade cedem espaço para o vencer, sobreviver, subjugar, conquistar e lealdade absoluta e cega. Não importa como se obtém a vitória, o que importa é alcançá-la. Não importa se existe trabalho escravo infantil, se os investidores da NIKE estão lucrando e a concorrência enfraquecida, OK.
O serviço público é o grande inimigo do sistema capitalista. A razão é óbvia. Se existe disponível ao cidadão um serviço público com qualidade e gratuito, quem vai gastar com os serviços pagos? Como os capitalistas vão lucrar? O serviço público é uma ameaça ao lucro do capitalista.
Nesse ambiente de solidariedade e cooperação, onde o cidadão paga impostos que são revertidos em serviços gratuitos, os capitalistas têm verdadeiras crises de ódio. Para eles, esse comportamento é o mesmo que jogar dinheiro no lixo.
Mas atacar essa ideia de solidariedade e cooperação, de forma direta e franca, causa um impacto bem negativo e os capitalistas não são ingênuos. Eles atuam como os vilões de desenho animado, como o Dick Vigarista, sabotando seus adversários. Isso é fato, basta ver que no mundo corporativo, o expediente usado por todos os funcionários que querem subir na empresa é a sabotagem e o ardil. A malandragem é uma qualidade/defeito do indivíduo e como o capitalismo é pró-indivíduo, é pró-malandragem.
Então, eles invadem o Estado, implantam seus agentes sabotadores no sistema público, reduzindo a eficiência, a qualidade e impedindo uma competição entre público e privado. A invasão vem pelo financiamento de partidos, de eleições, de políticos que, vaidosos e sem o menor compromisso com o bem comum, aceitam servir aos interesses sombrios de seus financiadores.
Nessa guerra criada, a única linha de defesa e combate é justamente o servidor público. Como é impossível varrer de uma vez todos os servidores, se inicia um amplo e insidioso movimento de asfixia desses soldados. O objetivo é desestimular o maior número de combatentes, até que eles abandonem seus postos. Os que resistem formam dois grupos: os abnegados e os desestimulados, que acabam por funcionar como uma espécie de agente duplo, trabalham mal, criam uma imagem negativa do serviço público e dos servidores. É dessa categoria que os capitalistas mais precisam. É fundamental, para os capitalistas, retirar qualquer imagem positiva do serviço público, incutindo na população a ideia de que a culpa do mal atendimento vem da má vontade e não da grande sabotagem.
O concurso público é uma importante arma contra esse modo de sabotagem. Infelizmente, são criados mecanismos de burla e desvio via terceirizações, contratações temporárias, Oss, cargos em comissão e etc. Esses mecanismos permitem uma invasão de pessoas incapazes e sem o menor compromisso com o serviço público. É óbvio, eles são empregados do setor privado.
Mesmo sob esse fogo cerrado, uma multidão de servidores públicos continua em seus postos de combate, lutando sem cansar, sem recuar, resistindo a todas essas formas de violência e opressão. Heroicamente, impedem o avanço daqueles que querem o fim do serviço público. Contudo, a cada dia, a luta fica mais difícil. A guerra é injusta, suja e vil.
Mesmo com todas essas deficiências, provocadas intencionalmente pelos agentes do capitalismo, os hospitais, as escolas, os bombeiros, os policiais mantém, na medida do possível, as portas abertas PARA TODOS, estendendo a mão e recebendo a TODOS. Mesmo trabalhando nas piores condições, recebendo os piores salários, continuam a trabalhar, porque acreditam que além do dinheiro, do capital, da riqueza, do luxo, uma sociedade não conhece a vitória se não cultivar a compaixão, a solidariedade, o respeito ao próximo e a cooperação. Não existe vitória quando apenas um grupo alcança bem estar. A vitória verdadeira só existe quando a conquista é compartilhada e TODOS SENTEM O MESMO BEM!
NÓS, os servidores públicos, não somos os vilões. Ao contrário, nós queremos ajudar e SERVIR da melhor maneira possível. É esse nosso interesse, nosso compromisso, nosso motivo, nossa motivação. Não aceitaremos, não nos renderemos, não abandonaremos essa ideia, esse valor, essa VISÃO. Não acreditamos no egoísmo do “cada um por si”. Não abandonaremos o navio!
GEORGE ORWELL escreveu que não importa se a guerra é real ou fictícia, a vitória é impossível. A guerra não é feita para ser vencida, é feita para ser PERMANENTE. As bases de uma sociedade hierárquica são fundadas na IGNORÂNCIA E NA POBREZA. Em princípio, a guerra proposta é planejada para manter a sociedade insegura e com medo. Eles não querem que as coisas melhorem.
Na verdade, é uma guerra contra o cidadão, para manter as estruturas desiguais da sociedade. Afinal de contas, para que ter um cidadão saudável, se meus hospitais precisam lucrar? Para que ter uma educação boa, que forme cidadãos CONSCIENTES, se eu não quero ter que explicar meus motivos e meus interesses egoístas? Para que ter uma sociedade segura de si, se eu quero determinar seus destinos? Para que a PAZ? MEU NEGÓCIO É GUERRA.

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